Bem, vou tentar resumir. Conheci meu marido ainda na faculdade, uma pessoa aparentemente normal. Namoramos, ficamos noivos e casamos, eu, claro, virgem. Até por questões religiosas. Algumas pessoas da família e amigos chegaram a comentar que ele era muito possessivo. Na época, não entendi. Após meses de casados, infelizmente minha mãe faleceu e não tenho pai.
Algo de estranho neste casamento já foi notado logo no começo. Minha sogra viúva, uma cunhada com um filho e a idéia de que meu marido era responsável também pela casa e sobrevivência das mesmas. Sempre trabalhei, estudei e ajudei em casa, porém nada era suficiente. Nunca fui de comprar roupas, sapatos, e sim ajudar na comida, no aluguel, nas compras, nos pagamentos de contas em geral. Logo no início tentaram morar conosco, porém não aceitei. Afinal elas tinham casa própria e eu morando de aluguel.
Com o tempo meu marido se tornou brusco, estúpido e briguento. Por maiores que fossem minhas tentativas, não mudava. Tudo girava em torno do dinheiro. Até quando se terminava um relacionamento íntimo e virava pra conversar, lá estava a bendita pergunta: “Quando você recebe, mesmo?”.
As brigas se tornaram constantes e quando eu chorava, ele arrotava! Nada estava bom. Como eu trabalhava em dois empregos e estudava, achei por bem chamar a mãe dele para limpar nossa casa e pagar para ela, já que ela sempre teve a chave da casa e entrava a qualquer hora! Aceitaram de pronto. Nunca tivemos bons móveis e uma amiga resolveu me presentear com um jogo de sofá e uma mesa de vidro fume. Nem preciso dizer que na primeira semana minha sogra colocou um prato quentíssimo e a mesa partiu ao meio. O que vi depois foi apenas alguém sorrindo e dizendo “foi sem querer”. Minha sogra nunca foi de falar absolutamente nada. Sempre entrou quieta e saiu muda e com carinha boa, mas algo ficava no ar. Percebi nos primeiros quatro anos de casada que não estava feliz. Desde minha lua de mel que fora péssima até aquele momento só se falava em dinheiro. Claro que como qualquer família brasileira passei por momentos de desemprego, dificu ldades, sim ele esteve sempre ao meu lado, me ajudou e quando conseguia recolocação fazia questão de me lembrar de tudo.
Nossa casa nunca foi um lar. A cama sempre esteve sem lençol, os travesseiros sem fronha, comida que estraga na geladeira, sem cortinas e sem tapetes. Por mais que eu me esforçasse, sentia-me sozinha e impotente. A maior briga era com minha máquina de lavar louça que ele achava um absurdo e muitas vezes quando a mãe chegava, pedia para tirar toda a louça suja da porcaria da máquina e lavar na mão, do contrário gastaria muita energia. Ela simplesmente me ignorava e fazia o que o filho havia mandado.
Se eu temperasse o feijão com toucinho, lingüiça defumada, etc., ele pedia para temperar novamente; ela fazia. Um dia conheci uma pessoa maravilhosa, uma senhora que me abriu os olhos e disse que aquilo não era um casamento e sim um contrato para dividir contas juntos. Só então percebi quando as brincadeiras e comentári os dele passaram a ser com minha cor, boca, etc. Nem preciso dizer que sexualmente tudo era pior ainda, até passarmos dois anos sem absolutamente nada!
E onde entra a sogra? Ah sim, no choro para ajudar a pagar as contas e na ajuda para pagar o imposto de uma determinada propriedade que, segundo ela, seria dele também. Claro que isso não ocorreu no futuro, apenas parte do dinheiro foi dado a ele. O triste é que a cada pergunta que eu fazia sobre a ajuda, havia uma mentira. Eu nunca me importei em ajudá-los desde que fossem honestos e sinceros comigo. Relevei muita coisa pelo casamento e pela religião e ficava confusa, pois meu marido na igreja era um gentleman e em casa começava a briga até pelo mosquito que passava. Nunca fui de fazer conta de comida, meus cartões e pagamento sempre foram nas mãos dele e nunca perguntei onde estava gastando. Determinado dia resolvi conversar com minha sogra e ela chorando disse que estava com medo de morrer e deixar a filha desamparada, uma vez que a mesma não gostava “muito” de trabalhar e agora era mãe de mais uma criança. Expus então meu caso, o problema que isso estava causando ao meu casamento e ela gentilmente me perguntou se não seria o caso de “perguntar para Deus se era da vontade D’Ele (Deus) a minha separação com o filho dela!”.
Continuei por algum tempo sofrendo pressão psicológica a ponto de precisar gravar fitas escondidas, pois ele me atacava verbalmente e quando eu ia conversar com ele depois de um tempo, dizia que eram coisas da minha cabeça. Só não enlouqueci porque as fitas estavam ali para provar. Ele costumava dizer que não ia me bater e sim me matar aos poucos. Engordei, emagreci, engordei, fiquei feia, infeliz, sem sexo, trabalhando igual idiota, sem roupas adequadas e o que sempre tive de bom foi meu filho. Apenas. Depois de 4 anos nesta vida, o chamei pra conversar e pedir a separação. Estranhamente ele disse ok e perguntou se poderia levar o carro e se eu poderia continuar pagando a assistência médica dele pela empresa. Respondi que sim. Ele disse que pagaria a pensão da criança, colocou suas roupas dentro do carro e foi para a mãe. No dia seguinte voltou cedo chorando, dizendo que eu havia entendido errado, ele havia apenas ido dormir lá. Não o aceitei. Foram meses de separação em que pude dormir sem ninguém me observar na cama. Ao cabo deste tempo, chorando, de joelhos, pediu, implorou para voltar dizendo sentir muitas saudades de mim e da criança. Deixei claro que ele poderia voltar, porém que eu não sentia mais nada por ele. Seria apenas pelo filho. O melhor homem do mundo retornou, bom humor, mais responsável, excelente pai, não tão bom amante, é claro, e como era de se esperar, 3 anos depois, voltou ao seu estado normal.Percebendo a mudança o sinalizei rapidamente e disse quais seriam as conseqüências. Desta vez eu não agüentaria. Melhorou alguns meses e agora novamente, aos poucos começa. Em todo este tempo sempre tive amizade com a família, fiz minha parte, aceitei-a novamente para limpar minha casa, o que já era uma ajuda, porém sinto que falta algo, como se fosse uma peça de um quebra-cabeça. A sogra disse que sofreu muito com a separação, que pedia todos os dias a Deus nossa volta. A irmã dele disse que xingou mesmo e ficou com ódio mortal por ele ter voltado para a casa delas, porque era incômodo e não importasse com quem ele voltasse, ela queria que ele sumisse de lá. Olha que eu gosto dela, converso, ajudo no que for preciso, ouço muitas histórias, aconselho até, porém fiquei surpresa recentemente, quando ela disse que se ele fosse brigar com ela por “bens” (só tem um), que ela ferraria com ele, nem se fosse para (perdoem-me o termo), foder com a minha vida!
Todas às vezes que começava a emagrecer ele vinha correndo com bolos, tortas, etc, e a mãe dele sempre comentava que eu tinha facilidade para engordar. Quando começava a emagrecer, a cada vez que me encontrava era a mesma pergunta, “você está tomando remédio?” Chegou inclusive a comentar que as “irmãs” da igreja achavam que eu estava com Aids de tão magra. Fiquei boquiaberta. Não é a primeira vez, que estando na casa dela com visitas, uma outra pessoa se mostra na frente de todos. Todos sentados na sala após almoço de domingo, alguém me pergunta se estou cansada, respondo que sim, ela completa: ” é só lavar toda aquela louça que passa” e a filha arremata ” vixi, poderia ter dormido sem essa…”. No mês passado, em uma festa de aniversário ela resolveu se queixar com os presentes que ela havia sido uma boa nora quando levou a sogra para morar com ela e cuidou até o fim da vida, levando até café na cama para ela. Fiz que não ouvi. Isto reflete no comportamento do meu marido, claro, que por mais que se mantenha agora a uma certa distância, claro que terá tendências para a família dele. Continuo, graças a Deus trabalhando, o cartão fica comigo, ajudo, porém não como antes. Ele tem um humor que oscila, de manhã bom, a tarde ruim, a noite bom, e assim por diante. A família vai bem, porém não confio mais. Estou fria e distante, por mais que esteja perto de todos. Penso apenas na minha filha. Sinto apenas que os anos estejam passando, quase 4.0! Rs. Porém me acho bonita, estou emagrecendo, continuo trabalhando, comecei a estudar inglês, e voltei à atenção para minhas amizades que eu havia abandonado por solicitação dele. Apesar da confusão gerada por estas escolhas, desta vez não abri mão do que quero. Ele chegou a pedir à irmã dele que viesse me dar conselhos para eu abandonar minhas amizades, pois estavam me influenciando. Não mudei nada, apenas porque conversamos por e-mail. Todos os dias ele diz que estou emagrecendo e quando tentei trocar de emprego e soube que o salário era um pouco menor, veio gritando dizendo que viveríamos do que?! Assim que contestei, ele me pediu perdão dizendo que tinha medo de me perder porque sabia que eu encontraria outra pessoa logo e seria feliz esquecendo dele. Chegou a comentar com uma amiga que se um dia eu o traísse me mataria, depois mataria a filha e por último, se mataria!
Quando vou à sogra, levo mistura, refrigerante, não como às custas de ninguém. Se preciso da casa limpa, apesar da relutância dele que tanto faz viver na sujeira como na limpeza, chamo a família dele e pago sim, só que não possuem mais a chave da minha casa. Esfriei porque cansei de ver as paredes sem pintar, o banheiro pingando, a pia vazando, as janelas sem cortina, as camas sem colchas, e resolvi que sou eu quem deve mudar; aos poucos vou arrumar tudo sem depender de homem algum. São quase 4 anos (de novo) com a casa deteriorando! Continuo confiando em Deus, vou a igreja, porém já sei identificar o ator marido e o marido real: na igreja, me abraça, é um doce, e em casa começa a colocar defeitos em tudo ou simplesmente se atira no sofá com o controle remoto e o mundo pode acabar. Não vou mentir, às vezes me ajuda sim, a fazer o jantar, lavar uma louça, porque chego tarde do trabalho, mas faz questão de me levar e traz er e até quando estou quieta pergunta o que estou pensando. Se consegui digitar aqui e porque estou sozinha em casa (apesar da relutância). Se vou assistir um filme ele começa, coloca no 71, tenta o 74, tenta o 77, ah não é legal, este filme também, não…”Levanto e vou pro quarto, coloco o fone para ouvir música. Ele vai atrás. Venho para o computador e daqui a pouco ele vem. A mãe continua da mesma forma, quando passa mal, liga e só quando ele chega tudo se normaliza. Até aí não posso falar nada porque é mãe e nunca sabemos quando a pessoa estará ou não passando de fato muito mal. Ele tem de ir. E às vezes ainda me pergunto porque estou tão fria!
Líggia
São Paulo.